segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ex-Maracanã e o materialismo histórico


O “novo Maracanã” construiu sua primeira representação histórica, ontem à noite, ao receber a final da Copa das Confederações na partida entre Brasil, uma seleção em construção, contra a Espanha, uma equipe consolidada mundialmente pelo futebol técnico e, principalmente, pelos títulos conquistados nos últimos anos.

Este duelo foi o ponto de partida para que esse novo estádio, que fica no Rio de Janeiro, crie uma nova identidade, e passe por cima do ex-Maracanã, que já foi palco da final da Copa do Mundo, em 1950. Aliás, o estádio foi construído na época para receber a final da competição e, além disso, ser o espaço onde os brasileiros, possivelmente, iriam ver a seleção brasileira pela primeira vez conquistar o título mais importante do futebol mundial. E acabou não acontecendo. Na final contra o Uruguai, o goleiro Barbosa, que foi injustiçado por praticamente toda a imprensa brasileira, aceitou o chute de Alcides Ghiggia. A Celeste sagrou-se campeã e o jogo foi conhecido como Maracanaço (em espanhol: Maracanazo).

Não apenas foi marco em final de Copa, o ex-Maracanã foi palco em finais de campeonatos nacionais, estaduais e, até mesmo, internacionais. Zico, grande ídolo do Flamengo, foi um dos ícones que construiu a história do antigo Maraca.

A reforma do Maracanã aconteceu depois do anúncio do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que antes era presidida por Ricardo Teixeira e atualmente por José Maria Marin, acatou que os estádios brasileiros fossem adequados pelo “padrão Fifa (Fédération Internationale de Football Association)”, o que representou a demolição – não só da estrutura física do estádio – do materialismo histórico e da identidade que foi construída há mais de meio século.

Para os sociólogos Karl Marx e Friedrich Engels, o materialismo histórico significa a evolução histórica de um determinado aspecto. Eles examinam, por meio dessa teoria, a ruptura e o desenvolvimento histórico, utilizando-se de elementos práticos, tecnológicos e modo de produção. No caso do Maracanã, o desenvolvimento histórico se rompeu quando perdeu totalmente a característica física do estádio.

Ainda de acordo com Marx e Engels, “a mudança da identidade é constante por conta dos meios de produção, de todas as condições sociais, da incerteza e do movimento eterno... Todas as relações fixas e congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido se desmancha no ar...”

Quanto ao sociólogo Anthony Giddens, “na medida em que áreas diferentes do globo são opostas em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social atingem virtualmente toda a superfície da terra - e a natureza das instituições modernas.”

Já o antropólogo Stuart Hall argumenta que a "crise de identidade" é vista como parte de um processo amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos das sociedades modernas e, dessa maneira, abalando os aspectos de referência que davam aos indivíduos uma estabilidade no universo social.

Voltando ao assunto do estádio. Ao levar alguém para conhecer o novo Maracanã, sem mencionar a ele a localização do estádio, certamente essa pessoa não saberá que está dentro do Ex-Maraca, que recebeu mais de R$ 1 bilhão para ser reformulado. E vale relembrar: com esse preço, daria para construir dois novos estádios, começando do zero.

Quando for falar em relação ao Maracanã a partir de agora, que foi totalmente reestruturado, deve-se comentar que, naquele espaço, o ponto zero - a sua história - deu início na final entre Brasil e Espanha, valendo a Copa das Confederações, e esquecer tudo que já passou naquele campo.

Eu, particularmente, não represento um fragmento dessa imensa multidão que teve a sorte de ir ao antigo Maracanã, que foi palco de quase 200 mil torcedores para ver a derrota do Brasil contra o Uruguai, em 1950. Quando que este novo estádio vai comportar um número desse?

Os saudosistas, que viram várias partidas importantes no antigo espaço, reclamam de alguns aspectos, que vou listar abaixo (desculpe-me se faltar algo):

1) As dimensões do campo mudaram para se enquadrar aos padrões internacionais, que é 105 m x 68 m;

2) A armação da rede do gol tem forma retangular, diferente da antiga, que era inclinada;

3) Dentro do antigo estádio, o espectador conseguia visualizar o Cristo Redentor e agora não mais;

4) Por conta da padronização Fifa, a geral do ex-Maracanã foi destruída e, em seu lugar, foi construída uma arquibancada europeia, onde o público senta na poltrona e vê a partida;

5) Preço abusivo dos ingressos. Na época de Zico, no Flamengo, a entrada custava uma lata e meia de óleo. Hoje, o cidadão tem que embolsar metade de um salário mínimo;

6) A frente do antigo Maraca está irreconhecível. Parece que está numa entrada de um estádio europeu. Perdeu totalmente a identidade.

Realmente, o Maracanã – quero dizer, o ex – colocou um ponto final em sua história, que deu início em 1950, ao sediar pela primeira vez a Copa do Mundo. Ao entrar na nova estrutura, não vamos mais nos lembrar do Maracanazo ou de algum gol feito por Pelé ou Zico. A partir de agora, a nossa memória desse estádio começou com o título de ontem entre Brasil e Espanha.

Protestos. Os protestos vieram em momento oportuno, quando o País irá sediar novamente uma Copa do Mundo, que trará para cá vários estrangeiros. Quem acreditou que depois do investimento estatal, a concessão do Maracanã iria arcar com os gastos? Acho que ninguém. Eike Batista, que venceu a licitação, ofereceu R$ 5,5 milhões por ano, um total de R$ 181,5 milhões. Ou seja, não vai arcar o dinheiro que foi investido para reformar o estádio. 

E depois vem o Pelé dizer para os brasileiros esquecerem as manifestações populares e fixarem suas energias para torcer pela seleção brasileira. Ainda bem que os brasileiros não aderiram à declaração do Rei do Futebol.

Comércio e morador. Fala-se que, com a vinda da Copa do Mundo, tanto os comerciantes quanto os residentes vão ganhar em vários sentidos. Pela Copa das Confederações, o cenário é outro. Os comerciantes alavancaram pouco seus lucros. Quem mais sofreu foram os moradores, principalmente aqueles que residem em locais com baixa condição financeira. Para que os estádios fossem construídos, as famílias foram removidas de suas moradias para que fosse feito a padronização Fifa. Mais cedo ou mais tarde, a Copa vai embora daqui para seguir rumo a outro país-sede. E nós, brasileiros, como ficamos pós-competição?

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