O
“novo Maracanã” construiu sua primeira representação histórica, ontem à
noite, ao receber a final da Copa das Confederações na partida entre
Brasil, uma seleção em construção, contra a Espanha, uma equipe
consolidada mundialmente pelo futebol técnico e, principalmente, pelos
títulos conquistados nos últimos anos.
Este duelo foi o ponto
de partida para que esse novo estádio, que fica no Rio de Janeiro, crie
uma nova identidade, e passe por cima do ex-Maracanã, que já foi palco
da final da Copa do Mundo, em 1950. Aliás, o estádio foi construído na
época para receber a final da competição e, além disso, ser o espaço
onde os brasileiros, possivelmente, iriam ver a seleção brasileira pela
primeira vez conquistar o título mais importante do futebol mundial. E
acabou não acontecendo. Na final contra o Uruguai, o goleiro Barbosa,
que foi injustiçado por praticamente toda a imprensa brasileira, aceitou
o chute de Alcides Ghiggia. A Celeste sagrou-se campeã e o jogo foi
conhecido como Maracanaço (em espanhol: Maracanazo).
Não
apenas foi marco em final de Copa, o ex-Maracanã foi palco em finais de
campeonatos nacionais, estaduais e, até mesmo, internacionais. Zico,
grande ídolo do Flamengo, foi um dos ícones que construiu a história do
antigo Maraca.
A reforma do Maracanã aconteceu depois do
anúncio do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. A Confederação
Brasileira de Futebol (CBF), que antes era presidida por Ricardo
Teixeira e atualmente por José Maria Marin, acatou que os estádios
brasileiros fossem adequados pelo “padrão Fifa (Fédération
Internationale de Football Association)”, o que representou a demolição –
não só da estrutura física do estádio – do materialismo histórico e da
identidade que foi construída há mais de meio século.
Para os
sociólogos Karl Marx e Friedrich Engels, o materialismo histórico
significa a evolução histórica de um determinado aspecto. Eles examinam,
por meio dessa teoria, a ruptura e o desenvolvimento histórico,
utilizando-se de elementos práticos, tecnológicos e modo de produção. No
caso do Maracanã, o desenvolvimento histórico se rompeu quando perdeu
totalmente a característica física do estádio.
Ainda de acordo
com Marx e Engels, “a mudança da identidade é constante por conta dos
meios de produção, de todas as condições sociais, da incerteza e do
movimento eterno... Todas as relações fixas e congeladas, com seu
cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas
as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se.
Tudo que é sólido se desmancha no ar...”
Quanto ao sociólogo
Anthony Giddens, “na medida em que áreas diferentes do globo são opostas
em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social
atingem virtualmente toda a superfície da terra - e a natureza das
instituições modernas.”
Já o antropólogo Stuart Hall argumenta
que a "crise de identidade" é vista como parte de um processo amplo de
mudança, que está deslocando as estruturas e processos das sociedades
modernas e, dessa maneira, abalando os aspectos de referência que davam
aos indivíduos uma estabilidade no universo social.
Voltando ao
assunto do estádio. Ao levar alguém para conhecer o novo Maracanã, sem
mencionar a ele a localização do estádio, certamente essa pessoa não
saberá que está dentro do Ex-Maraca, que recebeu mais de R$ 1 bilhão
para ser reformulado. E vale relembrar: com esse preço, daria para
construir dois novos estádios, começando do zero.
Quando for
falar em relação ao Maracanã a partir de agora, que foi totalmente
reestruturado, deve-se comentar que, naquele espaço, o ponto zero - a
sua história - deu início na final entre Brasil e Espanha, valendo a
Copa das Confederações, e esquecer tudo que já passou naquele campo.
Eu, particularmente, não represento um fragmento dessa imensa multidão
que teve a sorte de ir ao antigo Maracanã, que foi palco de quase 200
mil torcedores para ver a derrota do Brasil contra o Uruguai, em 1950.
Quando que este novo estádio vai comportar um número desse?
Os
saudosistas, que viram várias partidas importantes no antigo espaço,
reclamam de alguns aspectos, que vou listar abaixo (desculpe-me se
faltar algo):
1) As
dimensões do campo mudaram para se enquadrar aos padrões internacionais, que é 105
m x 68 m;
2) A
armação da rede do gol tem forma retangular, diferente da antiga, que era
inclinada;
3) Dentro
do antigo estádio, o espectador conseguia visualizar o Cristo Redentor e agora
não mais;
4) Por
conta da padronização Fifa, a geral do ex-Maracanã foi destruída e, em seu
lugar, foi construída uma arquibancada europeia, onde o público senta na
poltrona e vê a partida;
5) Preço
abusivo dos ingressos. Na época de Zico, no Flamengo, a entrada custava uma
lata e meia de óleo. Hoje, o cidadão tem que embolsar metade de um salário
mínimo;
6) A
frente do antigo Maraca está irreconhecível. Parece que está numa entrada de um
estádio europeu. Perdeu totalmente a identidade.
Realmente, o Maracanã – quero dizer, o ex – colocou um ponto
final em sua história, que deu início em 1950, ao sediar pela primeira vez a
Copa do Mundo. Ao entrar na nova estrutura, não vamos mais nos lembrar do
Maracanazo ou de algum gol feito por Pelé ou Zico. A partir de agora, a nossa
memória desse estádio começou com o título de ontem entre Brasil e Espanha.
Protestos. Os protestos vieram em momento oportuno, quando o País irá
sediar novamente uma Copa do Mundo, que trará para cá vários estrangeiros.
Quem acreditou que depois do investimento estatal, a concessão do Maracanã iria arcar com os
gastos? Acho que ninguém. Eike Batista, que venceu a licitação, ofereceu R$ 5,5 milhões
por ano, um total de R$ 181,5 milhões. Ou seja, não vai arcar o dinheiro que foi investido
para reformar o estádio.
E depois vem o Pelé dizer para os brasileiros esquecerem as
manifestações populares e fixarem suas energias para torcer pela seleção
brasileira. Ainda bem que os brasileiros não aderiram à declaração do Rei do
Futebol.
Comércio e morador. Fala-se que, com a vinda da Copa do Mundo, tanto os
comerciantes quanto os residentes vão ganhar em vários sentidos. Pela Copa das Confederações, o
cenário é outro. Os comerciantes alavancaram pouco seus lucros. Quem mais
sofreu foram os moradores, principalmente aqueles que residem em locais com
baixa condição financeira. Para que os estádios fossem construídos, as famílias
foram removidas de suas moradias para que fosse feito a padronização Fifa. Mais cedo ou mais tarde, a Copa vai embora daqui para seguir rumo a outro país-sede. E nós, brasileiros, como ficamos pós-competição?
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